Um barraco com sabor brasileiro em Genebra!

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Elisângela (à esq.) veio primeiro para Genebra. Um mês depois Elaine (à dir.) a encontrou.

Difícil encontrar a palavra mais apropriada para definir a atitude destas duas brasileiras que há dez anos resolveram trocar a geada do Paraná pela neve nos Alpes Suíços. As irmãs, Eliane e Elisângela, nunca tinham saído do Brasil, não tinham ideia do que as esperava do outro lado do mundo e, pior, não falavam uma única palavra que não fosse na língua portuguesa!

Relembrando sua trajetória, Elisângela diz que às vezes não acredita que teve tamanha coragem, “ou loucura” de largar tudo e se mudar para uma terra totalmente desconhecida. Mas, felizmente, a história das duas, apesar de todas as pedras do caminho, acabou dando certo e hoje elas são as proprietárias do Barraco Chic, o restaurante que é referência quando se fala em comida tipicamente brasileira no Cantão de Genebra.

COMO TUDO COMEÇOU…

A mudança na vida das duas gaúchas de Passo Fundo começou em Setembro de 2004. Elisângela Martin conta que elas moravam em Curitiba (embora tenham nascido no Rio Grande do Sul, a família mudou-se quando elas ainda eram crianças para o Paraná) quando uma prima conheceu, por meio da internet, um brasileiro que morava em Genebra. Ele, obviamente, falou maravilhas da cidade e da vida na Suíça. Dentre elas, o quanto ganhava uma pessoa para fazer faxina, uma espécie de salário mínimo suíço: 4 mil francos!

A conversão foi meio que automática na cabeça das brasileiras. Quatro mil francos multiplicado por 3,50 (valor do real frente ao franco na época) são 15 mil reais. A conta animou as irmãs: “Quinze mil reais para fazer faxina ou trabalhar em uma lanchonete? A gente pode ir, ficar um tempo lá, juntar uma grana e voltar para o Brasil”, pensaram elas. E assim começaram a se programar. A prima viria primeiro, um mês depois, Elisângela embarcaria e, mais tarde, Elaine.

Elisângela se desfez de algumas coisas, inclusive do seu carro e comprou o seu bilhete aéreo. Quando a prima chegou na Suíça, em Agosto de 2004, deparou-se com a verdadeira realidade do país. Sim, o salário oferecido era decente mas, por outro lado, a vida não era tão simples quanto parecia ser, tudo era muito caro (aluguel, seguro de saúde, alimentação), ou seja, ganhava-se bem, mas gastava-se muito. Esse lado não havia sido apresentado a elas antes!

Mas, àquela altura do campeonato, o bilhete já estava comprado e Elisângela não viu outra opção senão arrumar as malas e encarar o desafio. Ela chegou em Genebra no dia 18 de setembro de 2004 com a promessa de ficar hospedada por 3 meses na casa de uma pessoa conhecida da prima. Mas, para sua surpresa, quando desembarcou, não existia a tal casa e, além de não falar nada em francês ou inglês, também não tinha um teto para dormir. Felizmente brasileiro se ajuda em qualquer lugar do mundo e ela conseguiu se instalar provisoriamente na casa de um conhecido do namorado da prima.

Dois meses depois desembarcava em Genebra a irmã de Elisângela, Elaine Lagger. Embora sempre unidas, a vida das duas tomou rumos diferentes.

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Elisângela Martin

Elisângela trabalhou durante algum tempo fazendo faxina em residências e escritórios, depois conseguiu um emprego para cuidar de um menino de 3 anos que a ajudou muito com o aprendizado do francês. “Ele me corrigia o tempo todo, dizia que eu nunca ia falar francês, me dava livros em francês para ler. Aprendi muito com ele”, relembra ela. Depois a brasileira conseguiu emprego em um bar de imigrantes italianos em Carouge chamado Café des Touristes, onde trabalhou por 3 anos. “Eles só falavam francês e me ensinaram muito também”, diz Elisângela.

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Elaine Lagger

 Já Elaine teve uma trajetória um pouco diferente. Ela sempre trabalhou em bares e restaurantes. Muitas vezes promovia festas nos locais onde trabalhava, as chamadas soirée, em francês. Ela também trabalhou algum tempo no Café des Touristes. Depois foi convidada por um amigo sérvio para abrir um bar brasileiro chamado Gringa Bar. Durante 8 meses Elaine promoveu várias soirées e trabalhou bastante no bar até que percebeu que trabalhava demais para o valor que recebia (mil francos) e decidiu sair.

Apesar da descendência italiana, as duas só conseguiram o passaporte europeu e, consequentemente, a permissão para residir legalmente na Suíça, quase 5 anos após colocarem os pés no país pela primeira vez. Nesse interim, elas trabalharam bastante e conseguiram economizar uma grana razoável. “As gorjetas naquela época eram muito boas e rendiam quase um salário a mais no final do mês”, conta Elisângela. Começou a surgir, então, a vontade de abrir o seu próprio negócio. E a primeira ideia, claro, foi um restaurante. Afinal, as duas irmãs haviam adquirido uma boa experiência e conheciam muito bem a rotina do ramo. Mas elas não estavam sós. Elisângela havia se casado com Marcio Martin – um chef de cozinha com mais de 17 anos de experiência – a parceria ideal para o novo negócio.

O RESTAURANTE

O Barraco Chic foi inaugurado em Janeiro de 2010 mas, antes disso, várias etapas precisaram ser vencidas.  Elaine iniciou um curso de Cafetier, que tem a duração de 6 meses e é uma das exigências para quem quer abrir um restaurante em Genebra.  É ela quem assina a documentação do restaurante. Enquanto isso, Elisângela e Marcio pensavam no cardápio, decoração, etc.

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Durante o verão, o restaurante oferece um terraço aos clientes

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No cardápio, sucos e quitutes da colinária brasileira

“Naquela época era muito difícil encontrar produtos brasileiros em Genebra, bem diferente do que acontece hoje, então nós viajamos para o Brasil para comprar os objetos da decoração. Também aproveitamos para nos inspirar e criar um cardápio com a cara do Brasil”, comenta Elisangela.

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Na parede, uma prateleira repleta de produtos brasileiros…

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… e a famosa boneca, dão as boas-vindas aos clientes

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A oração da cerveja…

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… e pequenos detalhes, que fazem o brasileiro se sentir em casa

As irmãs contam que nunca investiram em publicidade, a única coisa que fizeram foi criar uma página em uma rede social e o resto foi o tradicional boca-a-boca.  Elas enviaram mensagens de texto para os amigos sobre a abertura do restaurante, mas não tinham noção de quantas pessoas apareceriam.  Mas, ao contrário do que imaginavam, a casa lotou logo na noite de inauguração. O público, 100% brasileiro!!

No cardápio, pratos tipicamente brasileiros, como o prato feito(PF), a feijoada, a picanha e a moqueca de camarão. Como opção de entrada há uma porção com coxinha de galinha, empada e quibe frito. Para beber , caipirinha e cervejas nacionais. A picanha, como não poderia ser diferente, é o carro-chefe do restaurante.

Com o tempo o Barraco Chic foi ganhando novos adeptos e conquistando o paladar do europeu. Atualmente a casa é frequentada por uma clientela bem variada. Durante o almoço o cardápio foi adaptado à clientela, professores e alunos da Escola de Engenharia, que fica bem próximo ao restaurante. Além dos pratos tradicionais, foi incluído o plat du jour, que oferece algum tipo de comida regional.

O restaurante oferece 38 lugares. Durante o verão, os clientes também podem se acomodar na parte externa,  no jardim que fica no fundo do restaurante ou no pequeno terraço, improvisado na frente do restaurante.  Mas é no inverno que o Barraco fica normalmente lotado. “Acredito que as pessoas não tem muito o que fazer durante o inverno, então é a época que saem mais para jantar”, explica Elisangela.

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A cachaça não pode faltar, afinal, a caipirinha é uma das especialidade da casa

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A decoração de madeira ao fundo lembra um barraco

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À noite e nos finais de semana…

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… a clientela é, em sua maioria, composta por brasileiros

Atualmente o marido de Elisangela não trabalha mais no restaurante, mas ele aparece de vez em quando para matar a saudade da cozinha. Já as duas irmãs, Elaine e Elisangela, se revezam para atender o público e as atividades do restaurante. Elaine é responsável pela parte administrativa, enquanto Elisangela toma conta da cozinha, cardápio, etc.  “Eu sou muito chata com a comida porque acho que o cliente tem que encontrar a mesma qualidade e o mesmo sabor, todas as vezes que retornar ao restaurante”, diz Elisangela.

A Feijoada é o prato do dia aos domingos

A Feijoada é o prato do dia aos domingos

A picanha é o prato favorito da clientela

A picanha é o prato favorito da clientela

E para as crianças, um hamburguer delicioso com batata frita

E para as crianças, um hamburguer delicioso com batata frita

Além das duas irmãs, trabalham no restaurante, hoje, um cozinheiro, um ajudante de cozinha, o pai Alzumiro de Oliveira – que é responsável pela parte de compras – e duas funcionárias, que trabalham durante a noite e nos finais de semana. “O cozinheiro é suíço mas aprendeu a fazer uma feijoada melhor do que a minha”, brinca Elisangela.

A única frustração das duas é o fato de não poderem mais oferecer música ao vivo, como planejado no começo do restaurante. “A ideia era um conceito de restaurante-bar, com música ao vivo todos os dias. Queríamos mostrar ao europeu que o Brasil tem muitas coisas boas, uma cultura rica, e a música popular brasileira é, sem dúvida alguma, uma das nossas maiores riquezas”, relembra Elisangela. Mas, infelizmente, a alegria das duas durou somente um ano, quando os vizinhos começaram a reclamar do “barulho” e o Barraco Chic perdeu a autorização específica exigida para oferecer música ao vivo na Suíça. Para solucionar o problema seria necessário instalar uma espécie de proteção acústica no local, que custa aproximadamente 20 mil francos. Porém, mesmo com esse investimento, a autorização poderia  ser novamente cassada, caso os vizinhos voltassem a reclamar. Mas, a cada três ou quatro meses, as proprietárias solicitam uma autorização especial para uma soirée e oferecem música ao vivo aos clientes. Uma forma de manter a ideia inicial do lugar!

Quando perguntei se ela sente falta do Brasil ou se gostaria de voltar ao Brasil, a resposta de Elisangela foi imediata: “Eu vivo o Brasil na Suíça, minha família toda está aqui, 60% da minha clientela é brasileira, eu falo português o tempo todo, eu como a comida brasileira todos os dias. O difícil para mim, hoje, é viver a realidade da Suíça!”

COMO CHEGAR AO BARRACO CHIC

O Barraco Chic fica na Rue Liotard, 4 – 1202, em Genebra. O horário de atendimento do restaurante é o seguinte:

  •  de segunda a sexta, das 9h às 14h / das 18:30h às 24h.
  • no sábado, das 9h às 14h / das 18:30h à 1 da manhã.
  • no domingo, das 11h às 17h.

Mas, como é normal na Suíça, o horário da cozinha é um pouco diferenciado. De noite, os pedidos são aceitos somente até as 22h. Para maiores informações, consulte a página do Barraco Chic (http://www.barraco-chic.ch/site/) na internet.

Se você estiver passando alguns dias em Genebra e sentir saudade do sabor da comida brasileira, não pense duas vezes, vá o Barraco Chic, certamente você não irá se arrepender.

 

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