Tinha uma pedra no meio do caminho, quer dizer, do roteiro!

“No meio do caminho tinha uma pedra / Tinha uma pedra no meio do caminho
 Tinha uma pedra  / No meio do caminho tinha uma pedra.”
(Carlos Drummond de Andrade)

Era para ter sido um final de semana perfeito mas, imprevistos acontecem (tanto bons quanto ruins), e o máximo que podemos fazer é encará-los e tentar solucioná-los da melhor maneira possível.

Chegamos a Montsapey (França), na sexta-ferira (08), já passava das 19h. Fizemos check-in em um dos únicos hotéis da cidade que encontramos pelo site da Trivago, descansamos um pouco e descemos para o restaurante para jantar. Conversamos um pouco com a gerente do local e acabamos indo dormir cedo porque estava bem friozinho e não há muito o que fazer por lá de noite.

A cidadezinha de Montsapey, de apenas 84 moradores, fica no alto da montanha, de onde se tem uma vista linda do Vallée de la Maurienne. Muitos turistas visitam a região, conhecida como Grand Arc, para fazer trihas e apreciar a beleza do lugar. E foi justamente isso que nós fomos fazer lá.

O dia amanheceu lindo no sábado, fresquinho e sem nenhuma nuvem no céu. Tomamos café e, antes de sairmos do hotel, postei algums fotos no blog e desejei um ótimo final de semana para os meus leitores. Mal sabia eu o que me aguardava!  🙁

Montsapey_Foto08.jpg

Paisagem vista da varanda do hotel

A trilha mais famosa é a do Lac Noir (Lago Negro) mas não queríamos fazê-la pois era muito longa, mais de 4h. Então decidimos fazer o circuito “Nature et Souvenirs“, de apenas 1h e pouco. Estacionamos o carro em Tioulévé (1280m), às 11h, e de lá partimos para a trilha.

Começo da trilha

Começo da trilha

Como de costume, erramos o caminho e acabamos dando uma volta muito maior. Mas como o dia estava perfeito, o clima agradável e a paisagem maravilhosa, continuamos montanha acima por cerca de duas horas até chegarmos a uma espécie de plateau – uma região plana de onde podíamos avistar todo o vale. De lá até o Lac Noir era mais uma hora de caminhada.

De cima era possível enxergar o vale...

De cima era possível enxergar o vale…

... a trilha em direção ao Lago Negro...

… a trilha em direção ao Lago Negro…

... e o topo da montanha coberto de neve

… e o topo da montanha coberto de neve

Decidimos, então, retornar pois queríamos conhecer outras vilas da região. O caminho de volta, ao contrário da ida, era extremamente fácil, uma rua de terra normal, com grau de dificuldade zero!! E acho que foi exatamente esse o problema. Começamos a descer conversando e apreciando a paisagem, que cada vez ficava mais bonita, até que nos deparamos com uma queda d´água que formava um pequena poça no meio da estrada, cuja água escorria montanha abaixo.

Olhando para trás, a montanha com neve...

Olhando para trás, a montanha com neve…

e para frente, o colorido das folhas

e para frente, o colorido das folhas

Pulamos algumas pedras para atravessá-la e, em seguida, eu me aproximei para tirar fotografia da pequena cachoeira. Lembro-me de ter visto o reflexo da montanha na água e tentado me agachar para fotografar aquela imagem. Mas nesse interim, não faço ideia do que aconteceu! Imagino eu que meu tênis escorregou em algumas pedras molhadas e eu desequilibrei totalmente. Sim, eu estava usando um tênis teoricamente apropriado para trilha mas já tinha percebido, em algumas ocasiões anteriores, que ele não era dos melhores. Devia ter jogado fora mas não o fiz e, provavelmente, ele contribuiu para a queda.

O tombo aconteceu neste lugar, aparentemente sem nenhum perigo.

O tombo aconteceu neste lugar, aparentemente sem nenhum perigo.

Acredito ter dado um passo para trás e não ter visto essa pedra

Acredito ter dado um passo para trás e não ter visto essa pedra

A única coisa que me lembro foi de ter colocado a mão na tentativa de evitar (ou amenizar) a queda. Porém, o peso do meu corpo foi todo sobre o meu braço e eu senti uma sensação muito estranha, foi como se eu tivesse tomado um choque muito forte. Quando olhei meu braço, percebi na hora que algo mais grave havia acontecido, o pulso estava totalmente deformado. Chamei pelo David, que estava alguns metros à minha frente e ele veio imediatamente.

Sentei por alguns segundos para recuperar meu estado normal e seguimos caminhando por mais 45 minutos até o final da trilha. Eu segurando o braço esquerdo, cujo pulso estava fora do lugar. Se estava doendo? Sim, um bucado, especialmente quando eu tinha que soltar o braço por algum motivo mas, tem horas que temos que ser mais fortes que a dor, não ia melhorar em nada a minha situação se eu simplesmente sentasse e chorasse. E assim chegamos ao carro.

Sem ideia de onde ir, decidimos voltr ao hotel e pedir informação. A gerente, Sandrine, nos orientou a ir ao Médipôle de Savoie, hospital especializado em mãos e membros superiores, na pequena vila de Challes-les-Eaux. Ela gentilmente me deu uma compressa de gelo para colocar no braço e lá fomos nós, mais uma hora de carro até o pronto-socorro. Felizmente fui atendida rápido. Uma radiografia confirmou a fratura no pulso e o médico plantonista me disse que o caso era cirúrgico e que eu deveria retornar na segunda-feira, às 9h, para ser internada e realizar a operação.

Braço imobilizado antes da cirurgia

Braço imobilizado antes da cirurgia

Bom, mas entre a minha chegada no pronto-atendimento e a cirurgia (realizada na segunda-feira), muita coisa aconteceu, inclusive a minha primeira experiência utilizando o seguro viagem (vou falar sobre isso em um outro post). Felizmente já estou em casa, com o braço esquerdo imobilizado mas sem nenhuma dor, graças a Deus.

A lição? Várias! Mas, sem dúvida, a principal delas é que a vida é uma caixinha de surpresas, engana-se quem pensa que tem algum controle sobre ela. Quando menos esperamos, algo acontece e muda totalmente o seu roteiro! A nós, só resta a opção de nos adequarmos aos novos rumos. Em alguns momentos, nesses últimos três dias, me senti frágil, chorei, me culpei, mas só tenho a agradecer a Deus, por ter me dado força e coragem, aos amigos que oraram e mandaram boas energias, a minha família e ao David que, sinceramente me surpreendeu com sua paciência, companheirismo e pensamento positivo durante todo o tempo.

Espero, muito em breve, poder voltar a me aventurar por aí, montanha acima, para mostrar para vocês um pouquinho das belezas que eu tenho tido o privilégio de conhecer!

Um pequeno passeio depois da alta hospitalar. Afinal, ainda tenho muitos roteiros para fazer! Espero em breve estar de volta às trilhas!

Um pequeno passeio depois da alta hospitalar. Afinal, ainda tenho muitos roteiros para fazer! Espero em breve estar de volta às trilhas!

*Artigo com publicidade