Escalada: a primeira montanha com mais de 4 mil metros, a gente nunca esquece!

Há dois anos e meio – mais precisamente no dia 25 de maio de 2012 – a minha amiga e amante de esportes radicais, Cecília Lopes Puccini, decidiu encarar o desafio de escalar, pela primeira vez, uma montanha com mais de 4.000 metros. Neste post, ela conta para os leitores do MEUSROTEIROS.COM como foi a preparação, as dificuldades e a emoção de escalar a montanha de Moench, na região de Bern Oberland, na Suíça.

"A emoção de chegar ao topo e apreciar a paisagem é indescritível" (Maria Cecília Puccini)

“A emoção de chegar ao topo e apreciar a paisagem é indescritível” (Maria Cecília Puccini)

A PREPARAÇÃO ANTES DA ESCALADA (Alimentação, Equipamentos e roupas)

Texto de Cecília Lopes Puccini

Embora fosse muito cedo para mim – mundialmente conhecida pela dificuldade em acordar – eu quase pulei para fora da cama quando o alarme tocou, às 5h da manhã. Por conta da excitação com a escalada da minha primeira montanha com mais de 4,000m que eu estava por fazer, quase não dormi.

Com montanhas altas, às vezes não é a dificuldade técnica da escalada que impede a chegada ao cume, mas sim a altitude. Quanto mais acima de 3,000m, maior a dificuldade de obter oxigênio para os pulmões e, consequentemente, para os músculos e o resto das funcões corporais que necessitam dele para funcionar (quase tudo em nosso organismo). Tudo sofre com a redução do ar.

Eu tomei um banho rápido, comi uma maçã e tomei leite. Somente muito tempo depois é que fui aprender qual dieta é recomendada antes de uma escalada desse tipo (massa na noite anterior, banana, cereais com leite, chá descafeinado, frutas secas e castanhas).

Depois do meu modesto café da manhã de alpinista amadora, terminei de arrumar minha mochila:

  • 3 pares de luvas: uma fina pra ficar junto à pele; uma média que age como camada exterior em caso de temperaturas amenas; e uma terceira luva mais grossa para ficar por cima dessas duas primeiras, caso esteja muito frio.
  • Gorro e proteção para o pescoço, ambos de lã;
  • 2 camadas de proteção para o torso: um casaco de lã mais grosso para ficar por cima da camiseta (também de lã , porque algodão não seca rápido quando você transpira), e uma jaqueta de gorotex, que protege contra vento e chuva. Essa jaqueta, quando necessária, é a última camada;
  • Grampos para as botas de escalada, um pra cada lado do pé. Eles são utilizados em terreno com neve e gelo para que você não escorregue. Os grampos também são essenciais para escalada em paredes verticais de gelo. Como eles são feitos de metal, não são um equipamento muito leve;
  • Um machado de gelo;
  • 3 mosquetões;
  • Cadeirinha;
  • 1 litro de água e comida para montanha (bolacha salgada, frutas secas, e queijo).
Cadeirinha de escalar (peça laranja)

Cadeirinha de escalar (peça laranja)

Machado de gelo

Machado de gelo

Peso total da mochila: 8kg!

Um pouquinho pesada mas, este é o preço a ser pago para chegar ao topo de montanhas mais altas!

Saí de casa apressada, já que ainda tinha que passar no posto de gasolina pra abastecer e meu destino ficava a uma distância de quase 2 horas de Zurich, na região suíça chamada Bern Oberland. Quando comecei a dirigir não estava pensando que estava cansada pela noite curta e mal-dormida. Eu só queria chegar lá. Como ainda estava escuro, não vi uma boa parte da paisagem maravilhosa que acompanha o caminho.

Só por volta das 7 da manhã – quando me aproximava da cidade de Interlaken – vi, com os primeiros raios de sol, o amanhecer nas montanhas. Elas mostravam , mais uma vez, seu esplendor de forma e cores. Pareciam trazer o céu para perto de nós. “A beleza da natureza, qualquer que seja sua forma, é muito difícil de descrever”, penso eu com meus botões.

Eu cheguei à estação de Grindelwald-Grund em tempo de pegar o primeiro trem para Kleine Scheidegg, onde se troca de trem para prosseguir ainda mais para cima com destino à estação de Jungfraujoch, a 3,400m. Você não sente a altitude imediatamente, mas depois de alguns minutos a cabeça começa a doer e a respiração começa a ficar mais trabalhada.

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A estação de trem de Kleine Scheidegg (2061m)….

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… ponto de encontro com o guia Edi.

No café da estação de Jungfrajoch encontro pela primeira vez o meu guia de montanha para essa aventura. Edi é guia há mais de 40 anos e tem uma experiência e um ar de calma que só o tempo e o contato constante com a natureza podem trazer.

Logo de cara já gostei da atitude do Edi pois ele falou que iríamos escalar o tanto quanto fosse divertido para mim e obviamente, dependendo das condições do tempo e da neve. Caso eu ficasse com medo, cansada ou com frio, poderíamos simplesmente dar meia-volta e descer. Sua flexibilidade me agradou e impressionou, principalmente porque estávamos em um país conhecido pela sua rigidez – a Suíça.

Antes de seguir, Edi abriu o mapa da região e me mostrou a rota de escalada do
Moench, 4.165m – nosso destino.

A  APROXIMAÇÃO E A SUBIDA

A aproximação – isto é, o caminho até o início da escalada propriamente dita – foi laboriosa e mais demorada que o normal. O caminho estava com uma camada média de 1,5m de neve. Cada passo dado era medido e cuidadoso, mas não teve jeito e afundamos várias vezes até a cintura. A neve chegava até a altura da coxa na maior parte do caminho. À medida que prosseguíamos, eu pensava comigo mesma, “trazer raquete de neve ou skis na próxima vez!”.

A parte mais difícil, que era abrir a trilha, ficou por conta do Edi, mas mesmo vindo atrás, eu também tive dificuldades.

O caminho até o início da escalada, propriamente dita, foi bem difícil

O caminho até o início da escalada, propriamente dita, foi bem difícil

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O guia Edi foi na frente, abrindo caminho.

Quando chegamos ao início da escalada (onde se vê esse grupo bem à frente e longe do Edi na foto acima), paramos por 10 minutos para beber água, comer e colocar a cadeirinha, grampos e corda de escalada.

Uma vez com tudo checado duas vezes por questão de segurança, partimos para cima, literalmente. Quando eu olhava e via os outros alpinistas já bem longe, tinha a impressão de que não seria possível chegar ao cume, ele parecia muito distante e alto. Mas, toda escalada começa com o primeiro passo, e o primeiro passo eu dei!

Os primeiros 20 minutos são os mais difíceis na minha opinião. Acho que o motivo é o fato de você não ter entrado ainda no ritmo e saber que está longe do seu objetivo. Depois da primeira meia hora, seu corpo e mente entram em sintonia, e ambos trabalham juntos, harmoniosamente, focando apenas em por um pé na frente do outro e em manter um ritmo de respiração – inspira, expira, inspira, expira. Nada mais importa.

Depois de uma hora chegamos ao ponto onde havia uma seção curta de escalada na pedra. Essa foi a parte que exigiu mais técnica. Os grampos continuaram fixados nas botas, porque o processo de tirá-los, escalar a rocha, e coloca-los de volta tomaria muito tempo.

Eficiência e velocidade , isso é tudo na escalada. Achei os primeiros pontos onde colocar as mãos para dar equilíbrio e logo achei pontos de apoio para os pés, que dão o impulso para cima. Segui esses passos por mais quatros vezes, e cheguei ao topo dessa seção. Como passou tão rápido e subi com certa destreza, fiquei bastante contente com meus treinos para essa escalada.

Não se deve nunca escalar uma montanha sem se preparar fisicamente para as demandas ou tecnicamente para as dificuldades. É sempre possível não se
atingir o cume ou porque o tempo mudou, ou a condição do terreno estava muito perigosa, mas ter que dar meia volta ou mesmo se colocar em posição de risco de acidente por falta de treino pode ter consequências desastrosas nas montanhas.

O caminho, visto de cima, mostra a trilha que foi feita

O caminho, visto de cima, mostra a trilha que foi feita

Paradinha para tirar foto com a montanha Jungfrau ao fundo

Paradinha para tirar foto com a montanha Jungfrau ao fundo

Após duas horas, a altitude começou a se manifestar mais intensamente. A respiração ficou mais elaborada e mais difícil. A dor de cabeça também aumentou e comecei a duvidar de que seria possível chegar ao cume. Mas, uma paradinha de 5 minutos (que me ajudou a recuperar o fôlego) e o encorajamento do Edi (que afirmou estarmos somente a 20 minutos do cume) me fizeram continuar.

FINALMENTE O TOPO E A COMEMORAÇÃO

Chegamos à parte da crista que é bastante estreita, com caídas inclinadas em ambos os lados. Já tinha lido na internet que essa parte era a mais delicada, e onde vários escaladores decidiam dar meia volta. Mas, felizmente, naquele dia a condição da neve estava ideal e, com muita atenção, prosseguimos sem problema. Em locais como esse, a orientação, caso um dos escaladores caia para um dos lados, é que o outro escalador pule para o lado oposto.

Depois de muito esforço e concentração, finalmente chegamos ao topo. A vista era simplesmente maravilhosa! Muitas montanhas ao nosso redor, o céu claro, de um azul profundo, nenhuma nuvem, o sol brilhando e, para completar, aquele sentimento de estar onde se queria chegar, olhando para trás e vendo de quão longe viemos.

No topo, com os Alpes Suíços ao fundo, em um dia em que a vista alcançava a Áustria e a Itália

No topo, com os Alpes Suíços ao fundo, em um dia em que a vista alcançava a Áustria e a Itália

Não tem como não ter um sorriso enorme de felicidade de estar no topo e poder apreciar esta vista maravilhosa.

Não tem como não ter um sorriso enorme de felicidade de estar no topo e poder apreciar esta vista maravilhosa.

Apesar da felicidade de estar no topo, alpinistas não se esquecem nunca de que chegar ao cume é só metade do caminho. Tanto esforço não vale nada se não se chegar de volta à base. Quase 80% dos acidentes em montanhas acontecem na descida, então não se pode baixar a guarda de jeito nenhum. Comemoração de verdade, só quando estiver de volta “em terra firme”.

De qualquer maneira, não pudemos ficar no topo por muito tempo, porque o vento aumentou e ficou muito frio rapidamente. Depois de tirar algumas fotos, chegou a hora de dar meia volta. Após 6 horas e 40 minutos (desde a saída da estação de trem (Jungfraujoch) estávamos de volta ao ponto de partida.

A montanha Jungfrau- uma das mais altas da Europa – é muito conhecida entre os turistas como o Top of Europe. Desta vez não fiquei hospedada por lá, até porque já visitei várias vezes a região. Mas, caso você queira fazer o passeio ao Top of Europe, uma dica é se hospedar na cidade de Grindewald. Você encontra várias opções de hospedagem no site do Trivago, que faz uma busca em vários sites do segmento e promete encontrar a melhor oferta e preço para você.

Eu cheguei em Zurique às 21hs e, de tão cansada, nem jantei, apesar de só ter comido queijo, bolacha e fruta seca o dia inteiro. Tomei banho e dormi muito contente de ter escalado a minha primeira montanha com mais de 4.000m de altitude!

*Artigo com publicidade